O que é que as crianças precisam que a tecnologia não consegue dar? Rita J. Duarte partilha o seu ponto de vista.

Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão distraídos.
Vivemos entre notificações, respostas imediatas e tecnologia que promete facilitar tudo. A inteligência artificial organiza, responde, antecipa. Tudo parece desenhado para nos tornar mais rápidos e eficientes.
No meio desta eficiência, e enquanto pais, podemos fazer uma pergunta essencial: o que é que os nossos filhos realmente precisam de nós que a tecnologia não consegue dar?
A resposta é simples e exigente: presença, humanidade e conexão.
Estar presente não é apenas estar ao lado. É estar disponível. Ouvir com atenção. Fazer uma pausa antes de responder. Guardar o telemóvel quando eles começam a contar algo.
As crianças e os adolescentes sentem quando competem com um ecrã. Sentem quando recebem atenção pela metade. E, acima de tudo, aprendem com isso. Porque os filhos não aprendem apenas com o que lhes dizemos. Imitam a forma como vivemos.
Quando lhes pedimos que larguem o telemóvel e interrompemos as conversas para ler notificações, estão a aprender que isso é aceitável. Quando lhes pedimos conexão e lhes oferecemos distração, estão a aprender que a atenção pode esperar.
Muitos pais preocupam-se com os adolescentes fechados nos seus ecrãs, difíceis de alcançar. Talvez valha a pena perguntar: não estamos já a fazer-lhes o mesmo?
Estudos recentes alertam para o impacto daquilo a que alguns investigadores chamam technoference: a interferência da tecnologia nas relações familiares e na disponibilidade emocional.
Educar na era digital não é rejeitar a tecnologia. É mostrar, pelo exemplo, que ela é uma ferramenta e nunca irá substituir uma relação humana.
Também é humanizar. Mostrar que não precisamos de ser perfeitos. Dizer: “Desculpa, não estava mesmo a ouvir. Conta-me outra vez.” Ou: “Hoje estou cansado(a), preciso de respirar antes de responder.”
São estes momentos que educam.
Três práticas para começar hoje:
A parentalidade consciente não pede perfeição. Pede intenção. Pede que, no meio de tanta distração, escolhamos regressar ao olhar, à escuta, ao abraço.
Porque num mundo cada vez mais artificial, a experiência de se sentir visto e amado por um ser humano presente continuará a ser uma das aprendizagens mais importantes de todas.
E por isso, que mudança quer começar hoje para escolher mais conexão e menos distração?