Ciclo de conversas com a participação de Manuel Sommer, Country Manager da Pulso Europe Portugal.

O meu percurso nesta área começou no início da década de 1990, quando era dono/sócio de uma unidade privada de tratamento de dependências químicas em regime de internamento. Em 1994 aconteceu aquilo que considero o momento decisivo da minha carreira nesta área.
Na altura apercebi-me de que cerca de 80% a 90% dos doentes que recebíamos estavam empregados. Eram pessoas com as mais diversas profissões e responsabilidades que, muitas vezes, iam diretamente do local de trabalho para o tratamento. Isso levou-me a questionar qual seria o impacto destas situações nas empresas, na produtividade, nas equipas e no ambiente de trabalho.
Foi essa reflexão que me levou a investigar os Programas de Apoio o Colaborador (Employee Assistance Programs – EAP). Em 1994 fui ao Brasil conhecer o trabalho desenvolvido pela Vila Serena, em São Paulo, onde estes programas já estavam bastante implementados. As empresas tinham protocolos com unidades de tratamento para apoiar colaboradores com problemas de dependência, acompanhando todo o processo de recuperação e reintegração profissional.
No ano seguinte voltei ao Brasil para conhecer a implementação destes programas em grandes empresas e, a partir daí, comecei a introduzir este conceito na realidade portuguesa.
Na altura, os EAP estavam maioritariamente ligados às dependências químicas. Com o passar dos anos, essa ligação foi desaparecendo e o conceito evoluiu. Hoje, os EAP estão muito mais associados ao bem-estar, à saúde mental, ao desenvolvimento pessoal e ao apoio aos colaboradores, sendo as dependências apenas uma das possíveis áreas de intervenção.
Na minha perspetiva, houve três momentos decisivos nesta evolução.
O primeiro foi a crise financeira internacional de 2007-2008 e, sobretudo, a crise de 2011 e o seu efeito dominó, em Portugal. Até então, muitas empresas entendiam que estas questões eram responsabilidade do Estado. A partir desse momento, perceberam que tinham de assumir um papel mais ativo na promoção da saúde e do bem-estar dos seus colaboradores. Em paralelo, assistiu-se também à profissionalização da área dos recursos humanos, que passou a integrar este tipo de preocupações de forma muito mais estratégica.
O segundo grande momento foi a pandemia da COVID-19. O impacto do confinamento e das alterações na organização do trabalho fez com que a saúde mental deixasse de ser um tema tabu dentro das empresas. As organizações passaram a reconhecer a importância de investir na prevenção e no apoio aos colaboradores.
O que mais me surpreende é precisamente esta mudança de paradigma. Os EAP deixaram de estar focados na intervenção em casos de dependência para se tornarem uma ferramenta estratégica de promoção do bem-estar, da saúde mental e do desenvolvimento das pessoas nas organizações.
A saúde mental é, sem dúvida, a principal preocupação das empresas. É o tema que surge com maior frequência, mas existe também uma procura crescente por soluções relacionadas com o bem-estar, a gestão do stress e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.
Hoje existe uma maior consciência de que os problemas pessoais dos colaboradores — sejam dificuldades financeiras, situações de desemprego no agregado familiar, desafios relacionados com os filhos, processos de imigração ou outras situações de fragilidade — têm um impacto direto no desempenho profissional. Quando uma pessoa está preocupada com questões da sua vida pessoal, perde a concentração, motivação e capacidade de resposta, o que acaba inevitavelmente por afetar a produtividade.
E a produtividade voltou a ser uma das grandes preocupações das empresas em Portugal. As organizações perceberam que apoiar os colaboradores não é apenas uma questão de responsabilidade social, mas também um investimento no desempenho e na sustentabilidade do negócio.
Ao mesmo tempo, os EAP permitem colmatar dificuldades de acesso a cuidados especializados. Muitas pessoas não têm capacidade financeira para recorrer a consultas de psicologia ou psicoterapia no setor privado e, no setor público, os tempos de espera podem ser longos.
Através de um EAP, os colaboradores e, muitas vezes, os seus familiares diretos têm acesso gratuito a apoio psicológico e social especializado. Para as empresas, trata-se de um investimento relativamente baixo que tem um grande impacto, tanto para os colaboradores como para a própria organização. São benefícios que muitos trabalhadores dificilmente conseguiriam obter por iniciativa própria.
A Inteligência Artificial é, sem dúvida, um grande tema, não só na nossa área, mas em praticamente todos os setores de atividade. Neste momento, estamos também a preparar o lançamento de uma nova plataforma com Inteligência Artificial, que deverá entrar em funcionamento muito em breve (ainda este ano) e que irá facilitar significativamente o acesso aos nossos serviços.
Importa, no entanto, referir que existe atualmente um regulamento europeu sobre Inteligência Artificial que impõe várias limitações ao seu desenvolvimento e utilização na Europa. Estas regras definem claramente o que pode e não pode ser feito, o que contrasta com a realidade de outros mercados, como o dos Estados Unidos, onde existe uma maior liberdade ao nível da implementação.
Na Europa há uma abordagem mais regulamentada e com uma maior responsabilização dos intervenientes, o que acaba por condicionar alguns desenvolvimentos. Ainda assim, estamos a avançar dentro desse enquadramento e a adaptar-nos à nova realidade.
Sim, efetivamente abrimos uma sucursal em Espanha e está a funcionar muito bem. Temos a sede em Barcelona e uma equipa local já consolidada.
Este é um mercado no qual estamos claramente a investir e a crescer. Neste momento já contamos com cerca de 120 empresas clientes em Espanha, o que demonstra que estamos a construir uma base sólida.
Além de Espanha, temos também presença em Moçambique e Angola, embora ainda numa fase menos estruturada. A nossa intenção é profissionalizar essas operações, eventualmente seguindo o modelo que aplicámos em Espanha, com a criação de estruturas locais mais formais.
Paralelamente, temos também a EAP Alliance, que está em forte crescimento. Trata-se de uma aliança de parceiros europeus, atualmente composta por 28 entidades. É uma rede bastante dinâmica e relevante a nível europeu.
Por fim, também temos vindo a reforçar a equipa interna em Portugal, nomeadamente nas áreas do Marketing, Business Development, Intake e Gestão de Clientes. Esse reforço tem sido essencial para garantir uma estrutura sólida, capaz de responder ao crescimento e à entrada de novos clientes. Neste momento, estamos bastante estáveis e preparados para continuar a expandir.
Entrem em contacto connosco, sem qualquer compromisso, e exponham as suas necessidades e preocupações. Não trabalhamos apenas ao nível dos EAP, mas também com outras soluções ajustadas à realidade de cada empresa e das suas equipas.
Muitas organizações procuram abordagens específicas, adaptadas ao seu contexto, e desenvolvemos soluções à medida dessas necessidades. Há, por exemplo, clientes que nos procuram apenas para ações de formação, sem recorrer a um programa mais abrangente.
O essencial é perceber que existem diferentes formas de intervir nesta área e que as soluções devem ser ajustadas ao que cada empresa realmente precisa.