Onde começa a nossa relação com a comida? Estivemos à conversa com a nutricionista Ana Pernil para desmistificar conceitos e partilhar dicas.
Na minha visão, a nutrição sistémica olha para a alimentação para além dos nutrientes e das calorias, é perceber que a forma como comemos também está ligada às nossas emoções, à nossa história familiar, aos padrões que aprendemos em casa e até à forma como nos relacionamos connosco próprios.
A nutrição convencional é importante, claro, e dá-nos uma base essencial sobre o funcionamento do corpo e das necessidades nutricionais, mas muitas vezes fica focada apenas no “o que comer”. A nutrição sistémica tenta perceber também “porque é que comemos da forma que comemos” e isso muda muita coisa.
Atualmente vivemos muito em modo automático e em constante pressão para produzir, fazer mais e chegar a tudo, a todos e agradar.
Muitos de nós comem enquanto trabalham, mexem no telemóvel ou pensam já na próxima tarefa, no próximo fim de semana ou nos próximos meses e isto faz com que o corpo até receba o alimento, mas a mente não está verdadeiramente presente naquele momento.
Quando isto acontece de forma constante, acabamos por perder a noção da fome e da saciedade, comemos mais rápido, mastigamos pior e até fazemos escolhas mais impulsivas. A longo prazo, tudo isto pode gerar desconforto digestivo, ansiedade em torno da comida, compulsão alimentar e uma desconexão grande do próprio corpo.
Existem vários sinais. Comer muito rápido e sentir culpa depois de comer; usar a comida como recompensa ou escape emocional; saltar refeições e depois perder o controlo ou até nem conseguir identificar se tem realmente fome ou não.
Outro sinal muito comum é viver constantemente em dietas, regras e controlo. Quando a alimentação deixa de ser algo natural e passa a ser uma fonte constante de stress, normalmente existe aí uma relação que precisa de ser olhada com mais atenção e cuidado.
Acredito que a mudança não acontece através da culpa nem da pressão. Primeiro é preciso ganhar consciência, perceber de onde vem aquele hábito, o que ele tenta compensar ou proteger e em que momentos aparece.
Muitas vezes queremos mudar o comportamento sem ouvir aquilo que está por trás dele e isso faz com que a mudança dure pouco tempo. Quando começamos a desenvolver mais presença, mais escuta do corpo e mais compaixão connosco, os hábitos começam naturalmente a transformar-se de forma mais sustentável.
Pequenas mudanças já fazem diferença. Por exemplo, parar realmente para comer, mesmo que sejam 10 ou 15 minutos, sem estar ao computador. Respirar fundo antes da refeição, mastigar mais devagar e tentar perceber como o corpo se sente ao longo do dia.
Também ajuda muito preparar minimamente as refeições e snacks para evitar chegar ao ponto de comer qualquer coisa por impulso. E acima de tudo, sair da lógica do “perfeito”. Uma relação equilibrada com a alimentação constrói-se com consistência e presença, não com controlo extremo.